Kaô Kabecilê, meu pai Xangô!
Senhor do trovão que rasga o silêncio dos céus, Rei de Oyó, dono da pedreira e da justiça, eu me curvo diante da tua majestade e abro o meu coração como quem abre as mãos vazias diante de um rei generoso.
Meu pai Xangô, que o teu machado sagrado, o oxê de duas lâminas, corte pela raiz tudo aquilo que tenta crescer torto na minha vida. Que uma lâmina afaste de mim a injustiça, a inveja, a falsidade e a palavra dita nas sombras; e que a outra lâmina abra caminho largo, firme e iluminado para os meus passos nesta semana que agora começa.
Cubra-me, meu pai, com o teu manto vermelho e branco: o vermelho do teu fogo que não queima quem te ama, mas consome tudo o que me faz mal; o branco da tua paz, que assenta o espírito como a pedra assenta no chão e não se move com o vento.
Xangô Airá, Xangô Agodô, Obá Koso, Rei que não morreu — que a tua voz de trovão silencie as vozes que me acusam sem razão. Que o teu raio ilumine a verdade onde houver mentira sobre o meu nome. Que nenhuma armadilha preparada contra mim encontre a minha porta aberta, e que toda pedra atirada em minha direção volte transformada em fundamento sob os meus pés.
Dá-me, meu pai, a serenidade da pedreira: firmeza que o tempo não desgasta, calma que a pressa não abala, coragem que o medo não dobra. Que eu saiba julgar com equilíbrio, falar com prudência, agir com honra e perdoar sem me curvar. Que eu não devolva ódio a quem me feriu, nem carregue o peso do rancor por caminhos onde preciso andar leve.
Que a minha casa seja pedra e não areia. Que os meus dias sejam justos. Que o meu trabalho seja abençoado, o meu sustento garantido, a minha saúde firme e a minha família guardada sob a tua sombra. Que ninguém que eu amo adoeça, se perca ou chore por minha causa.
Xangô, senhor da balança, pesa a minha vida com misericórdia. Onde eu errei, ensina-me. Onde eu fui injusto, corrige-me. Onde fui injustiçado, defende-me. E onde eu não puder ver o perigo, vê tu por mim.
Que esta semana que se inicia chegue ao seu fim com o meu coração em paz, a minha consciência tranquila, a minha mesa servida e a minha alma inteira. Que ao lembrar destes dias, eu possa dizer: o meu pai Xangô caminhou comigo, e nada me faltou.
Eu confio na tua justiça, meu pai. Eu descanso na tua força. Eu me abrigo na tua paz.
Kaô Kabecilê, Xangô! Kawó Kabiyesilé!
Que assim seja, hoje e todos os dias.