CAPÍTULO 4 — ENTRE O PASSADO E O FUTURO
A chuva caía lentamente sobre a cidade quando Helena deixou o escritório naquela noite. As ruas estavam quase vazias, e as luzes dos prédios refletiam no asfalto molhado. Ela caminhava sem pressa, segurando o celular com força, tentando organizar os pensamentos que pareciam cada vez mais confusos.
Horas antes, Gabriel havia feito uma pergunta que continuava ecoando em sua cabeça:
— Se você tivesse que escolher entre o que sempre conheceu e aquilo que realmente deseja, o que escolheria?
Helena não havia conseguido responder.
Durante anos, acreditara que sua vida estava planejada. Tinha uma carreira estável, uma família que esperava determinadas decisões dela e um relacionamento que, embora já não fosse como antes, representava segurança.
Mas então Gabriel apareceu.
Ele não chegou prometendo mudar sua vida. Pelo contrário. No começo, parecia apenas mais uma pessoa que cruzaria seu caminho e desapareceria depois de algum tempo.
Só que ele ficou.
E, pouco a pouco, Helena começou a perceber que o problema não era estar apaixonada.
O problema era descobrir que talvez tivesse passado anos confundindo amor com obrigação.
Ao chegar em casa, encontrou sua mãe sentada na sala.
— Precisamos conversar — disse Clara.
Helena parou na porta.
— Sobre o quê?
Clara respirou fundo.
— Sobre Gabriel.
O coração de Helena acelerou.
— Como você sabe?
— Eu sou sua mãe. Você pode tentar esconder algumas coisas, mas não consegue esconder quando está diferente.
Helena deixou a bolsa sobre o sofá.
— Não aconteceu nada.
— Justamente. Esse é o problema. Você sempre diz que não aconteceu nada quando, na verdade, alguma coisa está acontecendo dentro de você.
Helena ficou em silêncio.
Clara levantou-se e aproximou-se da filha.
— Você ainda ama Eduardo?
A pergunta atingiu Helena de maneira inesperada.
Ela abriu a boca, mas nenhuma resposta saiu.
— Eu não sei.
Clara assentiu lentamente.
— Então talvez você já saiba a resposta.
— Não é tão simples.
— Eu sei que não é. Mas você precisa parar de escolher uma vida apenas porque tem medo de decepcionar outras pessoas.
Helena baixou os olhos.
— E se eu escolher errado?
— Todo mundo pode escolher errado. O que não pode é passar a vida inteira se perguntando como teria sido se tivesse escolhido aquilo que realmente queria.
Naquela mesma noite, Helena recebeu uma mensagem.
Era Gabriel.
“Preciso falar com você. Amanhã, às oito. No lugar onde nos conhecemos.”
Ela ficou olhando para a tela durante vários segundos.
O lugar onde se conheceram.
Uma pequena cafeteria próxima ao parque.
Foi ali que tudo começou.
Na manhã seguinte, Helena chegou alguns minutos antes. Gabriel já estava sentado perto da janela.
Quando a viu, levantou-se.